A MULHER NO CINEMA

by:

FilmesGeral

Entenda os principais desafios enfrentados pelas mulheres no audiovisual e suas representações 

A luta feminina por igualdade entre os gêneros está preenchendo cada vez mais os campos da sociedade atual, que ainda tende a deixar as mulheres em segundo plano. Na indústria cinematográfica não é diferente… Os homens são os funcionários predominantes, ganham salários mais altos tanto em frente às câmeras quanto por trás delas, como produtores, roteiristas, diretores e outras funções que envolvem o mundo audiovisual. 

Vale lembrar que o público feminino consome mais da metade dos ingressos vendidos no cinema, mas ainda assim a desigualdade entre homens e mulheres nas fases de produção de um filme e na sua representação diante das telas traz consequências que podem ser observadas sem dificuldade. O machismo estrutural presente no cinema submete as mulheres para personagens submissas, passivas e muitas vezes mero objeto de desejo, sexualizando-as ao extremo. 

“Eu já passei e passo por muitas situações assim (assédio), principalmente nas redes sociais, onde as pessoas sentem uma liberdade maior de falar o que querem como se a cosplayer não fosse uma pessoa com sentimentos e que não fosse ver essas mensagens”. afirma a cosplayer Rafaela Marques (Blue Moon), 19 anos, sobre o assédio enfrentado na profissão. 

Pouco a pouco, notamos uma evolução dessas personagens mega sensuais e frágeis. As mudanças nos roteiros, estão a cada ano, equilibrando a balança cinematográfica e igualando a representação masculina com a feminina. Dessa forma, a visibilidade da mulher nas telonas aumenta e o público feminino se sente mais representado, sem mulheres com corpos idealizados erroneamente e fúteis para o enredo.  Ainda há muito a mudar, mas a nova era já começou. 

No filme “Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa” já podemos notar esse avanço. Margot Robbie, além de atuar, também participou da produção e defendeu que as mulheres do enredo teriam que passar por uma ressignificação para fugir da ideia de sexualização e objetificação da figura feminina nos filmes de herói. Seria o fim dos vestidos curtos que levavam o público masculino ao delírio.

A forma como Christina Hodson (roteirista), e Cathy Yan (diretora) trabalharam com essa nova pegada de Girl Power, resultou em um filme cômico e inspirador, onde, as personagens são totalmente diferentes umas das outras, o que cria maior facilidade dos espectadores se identificarem. 

Em entrevista ao Canal de resenhas e entrevistas da jornalista e crítica de cinema Isabela Boscov, o elenco e a diretora do filme discorreram mais sobre a temática, além de tratar sobre a  quantidade de cineastas mulheres nas grandes produções de herói. Confira abaixo: 

Panorama histórico

Desde o início da humanidade, o homem era considerado superior à mulher, sendo ele, única figura de poder/ autoridade no lar e na sociedade. A mulher, por sua vez, era a peça mais submissa desse tabuleiro e desde criança foi instruída a servir e obedecer ao homem, sem direito a opinião como visto nas próprias passagens bíblicas, como podemos observar nestes dizeres do Novo Testamento:

Efésios5:22-24 – Mulheres, sujeitem-se a seus maridos, como ao Senhor, pois o marido é o cabeça da mulher, como também Cristo é o cabeça da igreja, que é o seu corpo, do qual ele é o Salvador. Assim como a igreja está sujeita a Cristo, também as mulheres estejam em tudo sujeitas a seus maridos.

1Timóteo2:11-13 – A mulher deve aprender em silêncio, com toda a sujeição. Não permito que a mulher ensine, nem que tenha autoridade sobre o homem. Esteja, porém, em silêncio. Porque primeiro foi formado Adão, e depois Eva.

Criadas apenas para se tornarem boas esposas, mães perfeitas e objeto sexual, as mulheres, muitas vezes subestimadas, começaram a desejar mais do que aquela vida que tinham… se lá se pode chamar de vida. Algumas sobreviveram ao cárcere, cobertas com roupas feito freiras e se caso desobedecessem às regras impostas pelo marido, eram castigadas severamente com todos e quaisquer tipos de punição que o homem inventasse. 

Com o passar dos anos, as principais funções das mulheres deixaram de ser: cuidar da casa, do marido e dos filhos, para: começar a complementar a renda familiar e ter seus próprios desejos. Mas, mesmo com o pequeno avanço, faltava muito para as mulheres conquistarem sua independência total, devido a sua imagem de fragilidade criada na sociedade, elas ainda eram consideradas incapazes de realizar algumas funções.  

Foi a partir da Revolução Francesa (1789 – 1799), quando as ideias de liberdade, igualdade e fraternidade se concretizavam, que as mulheres perceberam que poderiam, sim, lutar pelos seus direitos.  Quando notaram que não eram mais 100% dependentes dos maridos e que sua voz seria finalmente escutada, as lutas por igualdade de gênero deram início e até hoje fazem parte do nosso cotidiano. A sociedade, nesse sentido, tem mudado.  Os movimentos feministas têm tomado força e as mulheres se unido em prol de seus direitos. Como por exemplo, os grupos de mulheres ativistas lutando por seus direitos em um momento muito importante de transição social que ocorreu durante a Revolução Americana (1775 – 1783), fato esse desconhecido por muitos.

De fato, a inserção das mulheres nos espaços públicos evoluiu significativamente, mas, ainda hoje essa inserção é marcada por opressões de gênero, pela sexualização do corpo feminino e pelas constantes dúvidas quanto à capacidade das mulheres, nos quesitos profissionais, quando muitas carreiras ainda são classificadas como masculinas.

Já não bastasse a cobrança social constante na vida das mulheres: “faça as unhas, arrume o cabelo, se vista adequadamente” ou pior “seja mais atraente”, agora elas também têm de lidar com os ataques no mundo do cinema. Uma questão interessante sobre essa representação feminina nas produções cinematográficas é que na maioria das vezes essa exibição de corpos super sensuais das mulheres é meramente para atrair o público masculino. Além de já ser uma ideia superficial e ultrapassada, essa atitude também acaba dificultando as relações reais dessas pessoas, sendo que uma vez encantados com o corpo escultural dos mundos virtuais, o homem não deseja mais se relacionar com pessoas reais porque elas não têm aquele estereótipo.

Fora isso, a idealização e criação dessas personagens perfeitas não representam nem um pouco as mulheres, que acabam se afastando mais ainda de uma coisa que gostam de fazer por não sentirem que fazem parte daquele mundo. 

Moema Fonseca ou Mocca, 34, baiana, comunicadora, cosplayer e empresária… Ufa, não é para qualquer um não! Ela relata que apesar de nunca ter sofrido assédio por ser cosplayer, já vivenciou situações onde escutou: “Cosplayer não é para adulto… é coisa de criança”, e já foi apontada por supostamente não ter idade para essas coisas. “Todo mundo tem um hobby, tem gente que prefere correr, tem gente que prefere malhar, tem gente que prefere beber. E por que  não ser cosplayer?” finalizou. 

Além disso, Mocca relembra um momento muito especial de quando fez cosplay da personagem Jasmine do filme Aladdin, na Comic Con Experience 2019. Moema estava com receio do que as pessoas poderiam dizer ou pensar, pois ela estava fazendo cosplay de uma personagem com um tom de pele diferente do dela. Confira abaixo o relato:

Hoje, sinônimo de fonte de vida, as mulheres ainda lutam para tentar desmistificar essa visão estereotipada, machista e ultrapassada, onde dependerem de um homem para sobrevivência e sucesso.  Muito além de um corpinho bonito, a capacidade intelectual feminina é muito mais desenvolvida do que a masculina e podemos provar. A inteligência emocional (EQ), por exemplo, é fundamental para o desempenho de homens e mulheres, responsável por 58% do desempenho em todos os tipos de trabalhos. A TalentSmart (fornecedora líder mundial de testes, treinamento e consultoria de inteligência emocional) testou a inteligência emocional de mais de um milhão de pessoas em 2019, onde as mulheres, de longe, obtiveram uma larga vantagem.  E embora a pontuação geral das mulheres seja apenas dois pontos mais alta que a dos homens, essa é uma diferença estatisticamente significante que mostra que as mulheres têm maior habilidade em usar as emoções em seu benefício. No teste foram consideradas as seguintes habilidades de inteligência:

-Autoconhecimento

-Consciência social

-Gestão de Relacionamento

-Autogerenciamento

Mulheres por trás das câmeras


(Alice Guy Blaché, a pioneira do cinema)

Você conhece Alice Guy Blaché? Ela foi a primeira cineasta mulher e a primeira diretora a incluir narrativa nas imagens, fazer sincronização de som, colorização, e utilizar efeitos especiais, ou seja, fazer cinema como conhecemos hoje! Mas infelizmente sua biografia é pouco conhecida e alguns dizem que Alice foi apagada da história do cinema. São poucas as pessoas que conhecem o trabalho genuíno da cineasta… Durante toda a sua vida, Alice tentou ser creditada pelo seu trabalho e fazer parte da história do cinema como merecia, porém esse reconhecimento nunca chegou. Ela dirigiu mais de 400 filmes durante sua carreira, de 1896 a 1920, inclusive filmes de terror. 

Se atualmente ser uma mulher cineasta já é uma tarefa difícil, imaginem no começo do século, não é mesmo? Alice, da França para o mundo, merece todo nosso respeito!

O cenário atual, não é nada magnífico como a filmografia de Alice. Um estudo divulgado pela Ancine (Agência Nacional do Cinema), que tem o objetivo de mapear o perfil do emprego no audiovisual entre os anos de 2007 e 2015, mostra que as mulheres ocupam 40% dos cargos no setor e que em 2015 elas receberam em média 13% menos que os homens. Ainda segundo a Ancine, em 2016, 20,3% dos filmes lançados no país foram dirigidos por mulheres, porém metade dessas produções são documentários, o que aponta para uma presença feminina em filmes de menor orçamento. Desses 10 filmes brasileiros mais vistos nesse mesmo ano, apenas dois contam com mulheres à frente da direção.

Nos demais cargos, como direção de arte e roteiro, a presença feminina também é pequena. Nas equipes mistas, as profissionais conseguem um pouco mais de espaço e a presença de movimentos e coletivos dedicados às mulheres do audiovisual prometem trazer diversidade para o mercado com dominação masculina.

Sabrina Rosa, roteirista e cineasta, teve seu primeiro contato com o set de filmagem em 1998, em um intercâmbio de cinema com jovens de 6 países. Mas como nem tudo são flores, ela também passou por algumas situações indesejadas, como as críticas que recebeu em seu primeiro longa metragem (Vamos Fazer um Brinde – 2011), onde falaram que era um filme de “mulherzinha” e que parecia um “Sex and the city carioca”, na intenção de  diminuir o filme. “Eu ria quando lia essas críticas e só me comprova  que precisava falar mais sobre mulher no cinema.” afirmou Sabrina. 

Sobre as maiores dificuldades de ser mulher nesse ramo, ela diz que a falta de oportunidades é o que mais complica “Um país onde ainda o audiovisual e dominado por homens, em todas as suas áreas. E para uma mulher preta como eu, o caminho é mais estreito, mas não desisto, sonho e luto pelo o meu lugar.”

“Há o desafio geral de atuar em uma área na qual somos minoria e dificuldades específicas relacionadas a questões regionais, econômicas e raciais, aliadas ao gênero, tornam ainda mais difícil trabalhar no setor audiovisual. Mas os maiores obstáculos são conseguir entrar no mercado de trabalho e depois permanecer nele”, afirma o Coletivo Vermelha, formado por diretoras e roteiristas, em entrevista ao Portal Metrópoles. O objetivo do grupo é pensar no espaço e na representatividade das mulheres na indústria. 

Por fim, para saber de fato a quantidade de mulheres que se sentem ou não representadas em alguns filmes, liberamos uma pesquisa onde as 82 respondentes escolheram de 0 a 5 o quão se identificaram com a produção. Dentre os filmes selecionados, o mais votado na categoria “me identifico totalmente” foi “Valente” (2012) e o mais votado na categoria “não me representa” foi “Jogos vorazes (2012). Confira a relação completa abaixo: 

  • Valente (2012): 53% se sente representada;
  • Estrelas Além do Tempo (2016): 39% se sente representada;
  • Mulan (2020): 39% se sente representada;
  • Frozen (2013): 34% se sente representada;
  • Mulher- Maravilha (2017): 30% se sente representada;
  • Olga (2004): 30% se sente representada;
  • Aves de Rapina (2020) – 20% se sente representada;
  • Jogos vorazes (2012):  9% se sente representada;

Produzido por:

Ana Júlia Carnahiba

Caique Lima

Camille Vasconcelos 

Héllen Pereira

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *